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Manutenção sem preparo técnico é investigada após morte em academia de natação

Manobrista diz que seguia instruções do sócio para uso de produtos químicos e não recebeu treinamento ou EPI

Publicado em 10 de Fevereiro de 2026 às 14:31

O manobrista responsável pela manutenção da piscina da academia C4 Gym, onde a professora de natação Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, morreu após passar mal durante uma aula, afirmou à Polícia Civil que realizava a limpeza do espaço seguindo ordens diretas de um dos sócios do estabelecimento, enviadas por mensagens de WhatsApp.

Severino José da Silva, de 43 anos, prestou depoimento na manhã desta terça-feira 10/02 no 47º Distrito Policial do Parque São Lucas, na Zona Leste de São Paulo. O inquérito também apura a conduta dos proprietários da academia, que devem ser ouvidos nos próximos dias.

O caso ocorreu no sábado 07/02, quando Juliana participou de uma aula de natação e passou mal logo após entrar em contato com a água da piscina. Além dela, outros cinco alunos apresentaram sintomas de intoxicação, entre eles um adolescente. A principal suspeita da polícia é de que gases tóxicos tenham sido liberados após a manipulação inadequada de produtos químicos em um ambiente fechado e com pouca ventilação.

Em depoimento obtido pela polícia, Severino relatou que trabalha há cerca de três anos na academia, registrado formalmente como manobrista, mas que também era responsável por abrir a unidade e realizar a manutenção das piscinas. Segundo ele, essas funções adicionais eram determinadas por um dos sócios, identificado como Celso, que orientava a aplicação de produtos químicos a partir de fotos dos testes da água enviadas por mensagens.

O funcionário afirmou que nunca recebeu treinamento técnico, habilitação específica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para manusear substâncias químicas, apesar de executar rotineiramente esse tipo de serviço. Segundo Severino, a falta de preparo era de conhecimento do proprietário. Ele disse ainda que aprendeu os procedimentos com o antigo manobrista, que realizava a mesma atividade.

De acordo com o relato, a rotina consistia em medir os níveis da água, fotografar os resultados e aguardar instruções do sócio sobre quais produtos utilizar e em qual quantidade. Na quinta-feira anterior ao incidente, Severino percebeu que a água da piscina estava turva e informou o proprietário. Na sexta-feira, após a última aula, recebeu orientação para aplicar apenas cloro na piscina maior.

No sábado, a água continuava com aparência alterada. Mesmo com alunos dentro da piscina, o sócio teria solicitado nova testagem e determinado a aplicação de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60. Severino afirmou que não chegou a despejar o produto diretamente na piscina. Segundo ele, preparou a mistura em um balde com água retirada da própria piscina, adicionou seis medidas do produto e deixou o recipiente a cerca de dois metros da borda, antes de retornar às suas funções como manobrista.

Cerca de dez minutos depois, o funcionário relatou ter percebido movimentação incomum na academia e um forte cheiro de cloro. Ele afirmou ter visto uma mulher sentada na recepção, amparada pelo marido, e um pai socorrendo o filho adolescente. Os professores foram avisados e retiraram os alunos da piscina.

O próprio Severino disse ter apresentado sintomas como dificuldade para respirar, irritação nos olhos e na garganta. Uma viatura da Guarda Civil Metropolitana que passava pela região foi acionada para auxiliar no socorro. A recepcionista tentou contato com o Samu e o Corpo de Bombeiros, mas, segundo o depoimento, nenhuma viatura compareceu ao local, e as vítimas foram levadas para atendimento por meios próprios.

Após o ocorrido, o funcionário retirou o balde com o produto químico da área da piscina e o levou para o lado externo. A academia foi evacuada e fechada em seguida. Severino afirmou que tentou contato imediato com o sócio responsável, mas só obteve resposta por volta das 14h11, quando o local já estava vazio. Segundo ele, ao relatar o ocorrido, recebeu apenas a resposta: “paciência”.

O manobrista reforçou que o único produto utilizado foi o HIDROALL Hiperclor 60, adotado recentemente por decisão do proprietário, que estaria testando um novo tipo de cloro. Ele também informou que, cerca de um ano antes, um técnico especializado chegou a prestar serviço na piscina e ofereceu acompanhamento permanente, mas a proposta foi recusada pelo dono, que optou por manter a manutenção sob sua responsabilidade.

Em nota publicada nas redes sociais, a academia C4 Gym lamentou o ocorrido, afirmou que prestou atendimento imediato aos envolvidos e que mantém contato com alunos e familiares para oferecer suporte. A empresa declarou ainda que colabora com as investigações e informou possuir Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), registro junto ao Conselho Regional de Educação Física (CREF) e alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023.

As investigações seguem em andamento para apurar responsabilidades criminais e administrativas relacionadas ao caso.

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